quarta-feira, junho 13, 2012

pediram pra que eu voltasse a atender o telefone. a caixa de mensagens
anda lotada. a minha doença não diz nada. mas eu digo que não tenho
essa vontade, nem quero ter. o quarto escuro me diz mais do que
qualquer outra voz ôca.
não me peça mais uma vez. talvez, um dia, eu
volte a abrir a porta. não bata com tanta força. não esmurre. não faça
suas mãos sangrarem à toa.
já faz tempo eu vi aquela agulha e a
linha cirúrgiacas, ali, por perto do hall de entrada, pensei que um dia
fossem derreter. não imaginei que seriam usadas por alguém que tentasse me
atormentar. bem feito. pelo menos, isso.
só quando quero não preciso agradar nem desagradar. apenas, cumprir com minhas responsabilidades.
não
quero, mas quero lhe contar que me envolvi com o mecânico. borracheiro.
com sua bolinha em cada fim de linha. seus jeans clichês e assobios
sombrios, como num filme nacional com lançamento tardio.
pornochanchadas. e seu cheiro de graxa. sua sujeira. seus sapatos
bicolores de bico fino bem lustrados compensam suas unhas sujas. tendo
ou não máquina de refrigenrantes por perto, pra gente se refrescar. faço parte das suas tramas e camas. as estradas estreitas ou
largas por onde passa e ganha sua miséria consertando os caminhões de
motoristas hipocondríacos e cheios de rebites na lata. lataria que
conhece cada buraco. cada marca no asfalto, mesmo que usem o piche pra
reconstruir. quatro bolinhas dizem mais do que qualquer psiquiatra com
conta recheada e super carro com tração nas quatro rodas. por isso
comprei um vestido. modelo tipo anos 40. só pra homenagear.

1 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Saudade!
Diógenes Buarque

15:52  

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